A última fuga frustrada do feioso

Lembro-me como se fosse ontem, aliás, como se estivesse acontecendo neste exato instante, estava sentada no batente daquele café, deviam ser entre sete ou oito horas da manhã, o dia estava lindo, o sol brilhava e fazia aquele friozinho típico de junho em São Paulo. Ouvi uma voz rouca e macia que a princípio me pareceu familiar, mas logo descartei essa possibilidade, era apenas um desconhecido passando: 

- Bom dia Dna. Inês! - como não houve resposta o dono da voz afastou-se. 

Pensei em virar-me e questionar por qual motivo Dna. Inês não pode responder, mas estava muito distraída com aquele animalzinho peculiar. Um cachorro com um focinho muito interessante que usava uma coleira prendendo-o a algum lugar que no momento eu também ignorava. Ele tinha aquele focinho achatado, como se tivessem apertado a cara dele contra a parede e respirava ruidosamente. O barulho era como de alguém gripado tentando sempre mandar aquele catarro para fora de si. E lá estava ele com quase um palmo de língua para fora, já havia até uma pequena poça de baba formada embaixo de sua boca. Ele olhava para mim fazia aqueles barulhos estranhos virava-se na outra direção e continuava a fazer seus barulhos. 

De repente ouvi um estalo ensurdecedor vindo de trás de mim, virei-me o mais depressa que pude e notei o rapaz do café, um funcionário, um garçom, ele apanhava uma colher ou um garfo, não sei dizer ao certo, tamanha foi a velocidade com que ele capturou o objeto. Tendo o talher em punho, imediatamente o atirou a pia, fazendo um barulho ainda maior, gesto pelo qual tive o maior prazer em repreendê-lo. 

- Que modos são esses, meu jovem? Onde o moço acha que está, em plena guerra? 

Ele sorriu e desenhou a palavra perdão com os lábios, sem produzir som algum. Achei seu gesto um tanto inusitado mas aprovei afinal, nada melhor do que o silêncio. Enfim, senti um leve repuxar em minha cadeira e foi exatamente esse puxão que me fez notar o enorme mal entendido que estava ocorrendo, aquele pobre cão de aparência tão horrenda e modos exemplares estava preso em minha cadeira pela sua coleira. Pobre animal, impossibilitado de pedir socorro, ficava apenas me encarando esperando o momento em que eu notaria o descuido de seu dono seja lá quem fosse o irresponsável. 

Já estava bem encaminhada no processo de soltura do animal, quando outra voz me interrompeu. 

- Bom dia Dna. Inês? E o Apolo como está? - Dna. Inês não deveria estar tendo um dia fácil, pensei comigo, pois também não respondeu a cortesia do transeunte. 

Fiz uma anotação mental ‘lembrar-me de investigar o que mantinha a Dna. Inês tão ocupada’, assim que concluísse a libertação do meu amigo feioso. Bolei uma estratégia perfeita em seus pormenores para a imediata soltura do bicho, mas novamente fui interrompida. Dessa vez, pelo menos, a interrupção veio a calhar, pois era o aviso do gentil garçom de que meu café com leite já estava pronto e ele só estava esperando ficar na temperatura ideal para me servir. 

Calculei que isso levaria um minuto e meio ou dois, o que era tempo mais do que suficiente para executar o meu plano. Então o pus em prática, como o animal estava exatamente preso ao redor da roda dianteira esquerda de minha cadeira, iria levá-la exatamente ao ponto da calçada onde apenas essa roda iria ficar livre, mantendo assim meu equilíbrio e ao mesmo tempo liberando a coleira do medonho, porém simpático, bicho. Aproximei calmamente a roda do final da calçada, não sem um tremendo esforço de minha parte, é claro, gesto ao qual o feioso (passei a chamá-lo assim, por não ter sido informada do nome da criatura) permaneceu indiferente. Ao final de mais meia volta da roda traseira, a roda dianteira já estava praticamente livre, eis que o garçom intrometido decidiu me avisar que o café estava no ponto. Algo em minha intuição falava pra esconder meus planos desse jovem, pois não tinha a confirmação de que ele fosse de confiança, então agi normalmente virando minha cadeira em sua direção e aguardando que ele servisse meu café com leite morno e meus biscoitos de forno, como estava devidamente instruído a fazer. 

Após essa leve e rápida refeição, a que nosso amigo feioso teve de esperar, e o fez sem nenhuma reclamação devo acrescentar, pus o plano de soltura em curso novamente. Aproximei a cadeira o máximo que pude liberando apenas uma das rodas e foi imenso meu alívio e o do animal também, assim o creio, notar que a coleira havia caído livre da cadeira. Trouxe minha cadeira a seu devido lugar e restabeleci a ordem das coisas. Só após me recompor do esforço notei que o animal permanecia impassível em seu lugar. Mesmo solto parecia estar disposto a gastar seu tempo aumentando a poça de baba. 

Na ânsia de chamar a atenção do animal para o fato de estar livre, atirei algumas migalhas do meu biscoito em sua direção para que ele tentasse comer e assim caminhasse para longe, o que foi totalmente inútil, tanto pela distância em que consegui atirar as migalhas, quanto pelo fato do animal ter ignorado completamente o meu gesto. Tentei emitir sons que fossem familiares ao feioso, outra tentativa inútil, além de um tanto constrangedora para mim. Além de ignorar todos os meus gestos parecia desconhecer assovios ou estalos de língua. Jamais havia conhecido animal tão estúpido. Decidi que o melhor a fazer era desistir do bicho e deixá-lo a mercê de sua própria sorte. 

Alguns instantes depois apareceu um pequeno jovem, muito bonito e muito parecido com meu filho mais novo, cogitei que talvez fossem amigos, ele aproximou-se dizendo: 

- Bom dia, vovó. Como a sra. está hoje? - ao que eu achei um tremendo disparate, afinal não o havia dado tal intimidade e por mais que tivesse, o que passara em sua cabeça para chamar uma mulher da minha idade de avó? 

- Meu filho, sua mãe não lhe ensinou boas maneiras? Pensa que pode sair por ai assim, chamando toda mulher de avó? 

- Xi, vó, já esqueceu de novo. Sou eu Plínio! 

- Não me venha com xí, nem meio xí. Exijo saber quem são seus pais imediatamente. Esse atrevimento não vai passar sem um bom corretivo. 

- Tá bom vó, ‘vamo’ lá no papai, que sempre que a Sra. o vê, sua memória meio que volta, sei lá. 

- Meu jovem, não vou a lugar algum até que seus pais venham aqui me dar uma ótima explicação para tais maneiras. 

Mas o jovem ignorando completamente todas as minhas reivindicações pôs-se a empurrar minha cadeira, ao que pude ouvir o garçom dizer: 

- Até mais tarde Dna. Inês, ‘tô’ esperando a Sra. aqui pro seu chá da tarde! 

O jovem abusado que empurrava minha cadeira ainda teve a audácia de me recriminar por soltar o animal e ousou afirmar que a criatura medonha me pertencia. 

- Oh vó, a sra. soltou o cachorro de novo? Se ele fugir, dessa vez não vou atrás, quero nem saber. 

Quanto abuso eu ainda teria de agüentar até que alguém me explicasse tal situação? Passado algum tempo, chegamos ao apartamento de número cento e um, entramos e logo na sala uma figura me pareceu familiar. Tratava-se de um homem, em seus trinta e poucos anos, traços muito parecidos com os do meu falecido marido. É verdade, só agora me voltava à lembrança de que meu Alfredo já não estava mais comigo. Apanhei o cachorro em meu colo e li em sua medalha de identificação, Apolo. O animal me havia sido dado por Alfredo, meses antes de sua morte. Aquele homem de seus trinta anos parecia-se com ele porque era meu filho mais velho e o jovem insolente era realmente meu neto. De repente uma chuva de pequenas lembranças começou a emergir de minha mente, coisas engraçadas e tristes, fatos interessantes e outros insignificantes, momentos da minha vida que a pouco eu ignorava completamente. As lágrimas foram inevitáveis, pedi ao jovem que me conduzisse até meu quarto onde fui rever objetos e retratos antigos. 

Essa foi a última vez que recobrei a memória por inteiro e mal pude fazer uso dela. Sei de tudo isso e me recordo agora, pois onde estou não existe mais uma consciência cronológica e nem há, tampouco, necessidade de tal. Não se faz necessário saber o que veio antes ou depois. Agora sou apenas um fio de consciência solto no espaço e a companhia daqueles que amo, carrego em mim. Absolvi a mim mesma dos meus pecados e sigo em frente, para os lados, para cima e para baixo, misturando-me ao cosmo ou qualquer outra coisa de que seja feito o universo.

7 comentários:

Diulye Araujo disse...

Mais outro texto que me fez viajar, viajar em cada detalhe, imaginar como eram os personagens. Não sei se estou certa mas no meu ponto de vista o texto me faz pensar que a personagem era uma simples senhora que carregava dentro de sí um passado o qual não consegui esquecer, por mais que ela tentasse escapar de um passado meio triste vire e mexe as lembranças vinham visitar a mente dela, até que um dia ela se entregou totalmente ao passado lembrando de cada detalhe vivido com seu amado.

Cecília Romeu disse...

Raylson,
posso te chamar de Bruno? Se tiver algum problema me dá um toque!
Bruno.... EXCELENTE TEXTO!
EXCELENTE TEXTO!
Vou ser muito sincera contigo, é difícil me prender a atenção em textos mais longos aqui na net, é sincero mesmo!
Teu texto é muito bom! Narrativa impecável, envolvente. Dona Inês está ótima! Personagem super bem-construído! Um tanto de ironia e suspense,... aliás, todos personagens muito bem-construídos, incluindo o cachorro, o feioso está ótimo.
PARABÉNS!
Volto com certeza.
Beijos e ótimos dias.

PS.: Ah! Me dá a ideia que você assisti muito filmes, pois tem uma espécie de "linguagem de cena". Teu texto é muito visual.

Cecília Romeu disse...

Bruno,
já ia me esquecendo, obrigada por ter colocado o Humoremconto na tua lista de leituras!

É comigo??? disse...

Minha segunda vez no texto, e o li deliciado como da primeira!Um pouco de banalidade, um pouco de drama, um pouco do "fantástico" e o resultado foi de muita personalidade!
Abração pra vc, e até "bem logo!"

Kiko Lemos disse...

Texto interessante, outra ótima construção narrativa. Cômico em certos aspectos, dramticos em outros, no geral inteligente como sempre.

Grande abraço

Monstrinha disse...

Menino! vc se mudou pra ca agora!
ja estou salvando seu novo endereço!
Deletou o outro blog de vez?

Barbara Nonato disse...

Lindo!
Teus contos convidam a mergulhar na leitura, e de cabeça! Final mais que emocionante.

Adorei!

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