Minha última amnésia alcoólica

Houve aquele estalo conhecido, uma leve vacilada das luzes e a velha geladeira começou seu zumbido rotineiro. Era domingo de manhã, ou quarta-fera, talvez terça... Era de manhã e fazia um frio de lascar. A ressaca não me deixava levantar, a não ser para cambalear até o banheiro e colorir o vaso com meu vômito. Minha cabeça ia e vinha, e a cada vinda trazia consigo uma paulada de dor no meio dos olhos. Ergui-me sobre os cotovelos numa tentativa de enxergar o horário, mas aqueles seis ponteiros insistiam em uma coreografia louca, desisti. Nesse momento fui arrebatado por uma dúvida. Estava erguido sobre os cotovelos, coçava a nuca e retirava remelas do meu olho direito. Como poderia eu, tendo apenas dois braços, ser capaz de tamanha façanha? Coloquei-me na frente do espelho. Estava nu e possuía dois pares de braços, antebraços e mãos. Fui tomado por uma tontura nauseante e caí de joelhos lançando um jato que continha os últimos aperitivos da noite anterior. Levantei-me com ajuda da parede e fui ao banheiro, tentando não pensar no assunto. Retirei o último grão de arroz de dentro do nariz, coloquei água para ferver e lavei o rosto. Precisava de um café forte, ou alguma carga de álcool. 

Era preciso que me lembrasse urgentemente de como havia ganho aquele par de braços extra. Comecei a recapitular a noite anterior. Tinha comido pizza, blá, blá, blá, blá, tomado umas cervejas, blá, blá, blá, blá, arroz, ou alguma coisa parecida, blá, blá, blá, blá, bebido um pouco mais, talvez vodka ou whisky e, no caminho de casa... foi isso... No caminho de casa, havia encontrado alguma coisa. 

Voltei até o quarto e comecei a vasculhar os bolsos das roupas da noite anterior. Duas notas de dez reais amassadas e algumas moedas, totalizando vinte reais e trinta e cinco centavos, minhas chaves jogadas ao lado dos tênis imundos, minha carteira no canto da parede com os documentos espalhados quase encostados no vômito, e ali, bem ali, em cima da minha TV de catorze polegadas, uma coisa estranhíssima, em se tratando de mim, é claro. Uma garrafa long neck de cerveja, lacrada. Eu havia encontrado aquela garrafa na rua, até ai tudo bem, mas o que tinha isso a ver com minha mutação? Foi ai que notei outra extravagante diferença em meu corpo. Meu pinto tinha aumentado pelo menos uns dez centímetros e também estava mais grosso. Lembrava-me de ter aberto a garrafa e alguma coisa havia acontecido, luzes e um homem espalhafatosamente vestido apareceram. Só podia ser um gênio. Um gênio na garrafa de cerveja? Então era óbvio que estes tinham sido meus pedidos. Será que havia um terceiro? Minha memória estava vazia. 

Apanhei a garrafa com minha mão superior direita e comecei a forçar sua tampa, aos poucos senti um leve tremor vindo da garrafa. A tampa se desatarraxou sozinha caindo em minha mão superior esquerda, e do gargalo começou a espumar cerveja nervosamente banhando meus braços. Pus a long neck no chão e fiquei a observar. E espuma desenhou um circulo perfeito ao redor da garrafa e uma voz ecoou em meu quarto. 

- Ai, meu deus. Ai, minha nossa senhora. Quem diabos me incomoda a essa hora? 

Fiquei em silêncio, boquiaberto observando o individuo velho e maltrapilho que se levantava em meio à espuma de cerveja. 

- Ai diabo, vai colocar uma roupa moleque! – gritou para mim o gênio-bebum – Eu não sou obrigado a acordar de ressaca olhando pra essa coisa pendurada ai rapaiz! Pelo amor de Deus, tenha modos! 

Instintivamente, minhas mãos inferiores se puseram a guardar meu instrumento enquanto eu apanhava minha calça. 

- Ora, mas que porra de trabalho é esse que eu fui arrumar? Num tem uma droga de uma cadeira nesse muquifo aqui não, oh muleque? 

- Calma, seu gênio... 

- Calma seu o QUE? SEU GÊNIO? Sua mãe não te deu educação não, oh criatura? Nem pergunta meu nome e sai por ai me chamando de gênio. GÊNIO É O RAIO QUE O PARTA! 

- Calma seu... 

- OOOOH! – balançou o dedo em minha direção. 

- Como é que o Sr. se chama? 

- Eu não me chamo não rapaiz, os outros é que me chamam. – e soaram tambores vindos de qualquer lugar, imitando um ‘stand up comedy, "tu-dum-tssss" – HaHaHa! Fala pra mim, essa foi ótima, heim? 

Ensaiei um sorriso com o canto dos lábios enquanto fechava o zíper da calça, fui até a cozinha, peguei a cadeira de ferro onde eu fazia minhas refeições e a entreguei ao... a... enfim, coloquei lá para ele se sentar. E o bebum continuou: 

- E não oferece uma bebida? Tá ruim de receber alguém assim, viu? Desse jeito vai ser difícil de conseguir usar seu novo instrumento. 

Fui até a geladeira, apanhei uma latinha e atirei para ele. Enquanto o gênio-bebum-seja-lá-o-que-for, trabalhava em sua latinha, corri até a cozinha e sincronizadamente meus braços se puseram a fazer suas tarefas. Enquanto um apagava o fogo onde a água do café já havia evaporado, o outro desligava o gás que vinha do bujão, o terceiro abria a torneira enquanto o quarto punha a panela sob a corrente de água fria. Voltei à sala. 

- Mas e ai, meu jovem, já pensou bastante? – disse-me o bebum, já mais tranqüilo. 

- Pensei em que? – indaguei eu, cá do meu canto. 

- Xiiii... Amnésia alcoólica. Conheço de longe. 

- Espera. Você deve estar falando do meu terceiro desejo... 

- Opa, chegou perto, vou dar mais uma chance. Seu terceiro pedido foi, uma geladeira com reserva infinita de cerveja, de qualquer marca, tamanho e modelo. Eu também costumava esquecer-me de tudo no dia seguinte. 

Eu era uma interrogação, sem camisa e com quatro braços, estática no meio da sala. 

- Okay! Simplificando, estamos falando do seu quarto e último desejo, meu jovem. Como eu sei que estou tratando com um novato que não sabe beber, vou repetir toda a ladainha de ontem. Preste bastante atenção, porque é sua última chance. Você tem direito a mais um pedido, sendo que o, cumprir ou não cumprir deste pedido, cabe a mim e apenas a mim. Ou seja, depende única e exclusivamente da minha boa vontade. Conselho: eu só realizo desejos que eu ache interessantes e originais. E que sejam coisas que o pedinte realmente queira, nada de coisinhas bonitinhas e profundas pra agradar quem quer que seja. Então garoto capricha e vamos acabar com isso que eu to louco para tomar uma. 

Pus-me a caminhar de um lado para o outro da sala, pensando e pensando. Vinham em mente carros, dinheiro, ex-namoradas, sucesso, fama e toda a sorte de coisas, mas nada me parecia interessante o suficiente para ser aceito por aquela criatura. O bebum ergueu o indicador e com a outra mão mostrou-me uma segunda cadeira de ferro, em seguida fez surgir entre nós uma mesa, e foi até a geladeira buscar uma cerveja e dois copos. Pusemo-nos então, a bebericar e conversar sobre a sua e a minha vida. Ele me contou de outros bebuns que havia atendido e sobre suas tentativas esdrúxulas de pedir coisas fúteis, desnecessárias e impossíveis (uma vida sem problemas, vida eterna, a paz mundial, o fim da fome na áfrica o fim da corrupção no Brasil), me contou também que nenhum conseguira aproveitar os quatro desejos e que às vezes ele até achava a idéia boa, mas não concedia o pedido só pra manter a tabu. Eu contei-lhe sobre minhas desventuras amorosas, sobre meu desejo de um dia escrever algo que prestasse, até o obriguei a ler alguns dos meus textos, os quais ele reprovou prontamente. Exceto um onde eu narrava a estória de dois mendigos perseguindo um colchão, ao fim do qual ele esboçou um leve sorriso. Eu gargalhava e batia na mesa enquanto contava-lhe uma piada e ele cambaleava pela sala imitando seus antigos amos. E quebramos duas ou três garrafas. Quase todas por minha culpa, pois ficava cada vez mais difícil coordenar meus movimentos com tantos braços. Ele caiu em prantos enquanto me falava de sua última esposa, uma gênia-drogada que havia morrido de overdose enquanto atendia um amo, ídolo do rock internacional. E eu chorei como um neném enquanto lhe falava do meu pai e de quanto eu sentia sua falta. 

..... 

Algumas horas de conversa depois eu devo ter adormecido por cima da mesa e depois caído em meio as garrafas, pois foi assim que acordei, era noite e minha cabeça doía mais do que nunca. Após um banho, uma xícara de café, uma latinha e algum descanso, lembrava-me perfeitamente da bebedeira, parei para pensar no meu último desejo “Droga, deveria ter desejado nunca mais ter ressaca ao invés disso.”

7 comentários:

Barbara Nonato disse...

Fazia tempos que eu não tinha acesso a conteúdo desse tipo em um blog. Curiosa a maneira como a tua forma de escrita convida a viajar, enveredar através das palavras de uma maneira leve, mas tão leve que o texto chega a um final sem que isso seja sentido. Há textos que parecem se arrastar, mas o teu não, ele simplesmente flui.

Interessantíssima a interação com o gênio que, pra mim, soou como um alter ego, dando um tom metafórico ao texto. Sensacional!

Agradeço tua visita no Minha Essência. Sinta-se sempre à vontade para opinar e interagir como quiser. Até!

Vampira Dea disse...

Não sei se acredito em amnésia alcoólica, mas na forma incrível como descreve com tanta riqueza de detalhes, isso sim. Parabéns

Dan disse...

que loucura esses braços!

ps: quero uma geladeira assim.

Muito bom!

Kiko Lemos disse...

Quase toda sexta para o sabado passo por uma amnesia desse tipo, na última vez acordei no apartamento de um casal amigo meu e colori toda a sala de estar, mas nunca encontrei um gênio, rs.

Ficou bastante interessante a forma do texto como Barbara comentou simplesmente acontece sem se arrastar.

Grande abraço

Diulye Araujo disse...

Obrigada pela visita em meu blog
Tive amnesia alcoólatra uma vez pra nunca mais rsrs. Olhaaa confesso que quando vi o texto pensei assim "ihhh é chato", mas me enganei, vc escreve bem e tem um belo domínio onde faz a gente viajar em cada detalhe do texto. Vou esperar os próximos textos.

Abraço

Cissa Romeu disse...

Raylson, tudo bem?
Muito bom seu conto, bem-escrito, com toques de genialidade, e ops..., tem um gênio mesmo! Ótimo então!
Um tanto quanto surrealista, o gênio quase como uma segunda voz, mas ao mesmo tempo um diálogo bem trabalhado, onde não se confundem os personagens, coisa que acontece frequente em contos.
Parabéns!
Te agradeço o comentário por lá, estou seguindo teu blog, se quiser, volta lá no meu e segue também. Será sempre bem vindo!
Volto.

Beijos e ótimos dias!

É comigo??? disse...

Completamente absurdo!!!Sinceramente eu fico pasmo com essas suas viagens, e uma parte que me arrancou o maior sorriso foi a metaestória dos ladrões de colchão(outra loucura divertidíssima sua!).
Muito bacana mesmo!Que bom que voltou a postar!
Abração!E nem preciso te dar meus parabéns né???

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